Não é o fim da linha

Há momentos em que parece que não dá mais, não é? Fazemos como a garotinha daquele vídeo viral que ainda circula pelas redes sociais: Um, dois, três! Chega! Já Deu por hoje! Você se lembra dele? Concluímos com o nosso coração que realmente encontramos nosso limite. A nossa confiança não se sustenta em pé e aquela oração curta, silenciosa, declarando total dependência, também parece não produzir efeito.

Aliás, ser autoconfiante e viver em total dependência de Deus parecem ser duas atitudes excludentes: ou você vive em total dependência de Deus ou você bate no peito e enfrenta o problema na sua força. A gente oscila entre o “vou fazer” e o “faz para mim, Deus!”. Lidar com isso pode parecer difícil.

Talvez, como eu, você já tenha pedido a Deus que fizesse determinada coisa por você, acreditando que esse gesto demonstrava sua fé ou sua confissão pública de total dependência dele. Manifeste-se quem nunca orou pedindo que o mar vermelho de dificuldades de sua vida fosse aberto e você pudesse passar a pés enxutos. Ou quem nunca pediu que o gigante Golias que se colocou em pé diante da sua vida, empatando sua jornada fosse removido de forma sobrenatural.

A Bíblia com suas histórias nos inspira a sonhar com eventos sobrenaturais. Se quando meu pai ou minha mãe faz algo por mim eu fico muito feliz, quem dirá ver Deus com sua mão poderosa remover as pedras do caminho e bradar vitória do céu com a mesma voz de trovão com a qual falou com Moisés. Isso seria incrível! E eu entendo bem esse anseio, porque há inúmeras situações em que nossos limites e capacidades se mostram muito inferiores aos nossos desafios ou que nossos sonhos pessoais parecem muito maiores do que nossa capacidade de realização.

Aliás, a história de Davi é um ótimo texto para falarmos sobre esse tema. Lemos sobre Davi, como um jovem que em sua ousadia derrubou o gigante Golias, e fazemos a matemática: ousadia somada a uma verdadeira dependência do Senhor é igual a conquistas e vitórias que sozinhos não seríamos capazes. Está correto, mas pode sugerir um caminho tortuoso. Atitude não é tudo, assim como sentar-se e ficar esperando que um raio desça do céu para destruir os Golias da vida não me parece muito razoável. A ousadia de Davi não era gratuita e este tipo de atitude só tende a produzir péssimos resultados.

“Você não tem condições de lutar contra este filisteu; você é apenas um rapaz, e ele é um guerreiro desde a mocidade”, disse o rei. Em outras palavras, o rei estava se posicionando e dizendo que seria uma grande irresponsabilidade da parte dele deixar que um menino assumisse a responsabilidade por um desafio tão grande. O que o rei via um jovem e não um guerreiro. Fica mais fácil entender em nossos dias aquele momento, se imaginarmos o Davi que o rei enxergava, como um de nossos adolescentes, que se tranca em seu quarto para tocar guitarra depois das aulas do colégio.

Se considerarmos o que os irmãos de Davi enxergavam, as coisas ficam ainda mais difíceis para o jovem desafiante. Ele era visto como o cuidador das ovelhas. Aos olhos de seus irmãos, Davi vivia na zona de conforto e fora de perigo. Não havia riscos no trabalho que realizava. O jovem usava chinelo de dedo e um estilingue, enquanto seus irmãos carregavam sobre o corpo uma armadura pesada e usavam uma espada como ferramenta de trabalho.

O que não podia ficar pior tornou-se um pesadelo para um jovem que deseja vencer na vida, quando seu pai também demonstrou que não acreditava em seu potencial. Durante a visita do profeta Samuel, que dirigido pelo Senhor, estava ali para ungir dentre os filhos de Jessé, o novo rei de Israel. Davi nem chegou a ser listado entre os filhos de Jessé.

São três perspectivas muito ruins contra Davi. Seu pai não acreditava no seu potencial. Seus irmãos o enxergavam como um coitado e o rei, que representa a maneira como a sociedade o via, não confiava no trabalho dele. Sinceramente, não vejo como isso podia piorar.

Diante de um cenário como este qualquer pessoa pode se sentir um fracasso. Das avaliações de desempenho nas empresas às justificativas dos que sofrem paralisados sem conseguir se reconhecer capazes de vencer, não restam dúvidas: a maneira como a família, os irmãos e a sociedade o vê, pode influenciar profundamente a sua autoimagem e impactar de forma relevante a sua realidade.

A validação do outro para quem somos e para o que fazemos é uma necessidade natural no homem, ainda que uns precisem mais disso e outros menos. O pai que elogia o filho é também o homem que vai se sentir aliviado ao ouvir seu filho falar bem sobre quem ele tem sido e quão boa influência ele é como pai e como homem.

Quando essas três perspectivas sobre alguém é positiva, a vida parece fluir com mais leveza, mas e no caso de Davi? Que autoimagem é possível elaborar a partir de tantas conclusões negativas sobre quem ele era. Fosse um Cabo-de-guerra e ninguém apostaria na vitória de Davi. Estavam todos contra ele.

Contudo, Davi não se apoiou sobre essas conclusões, nem que as impressões deles a seu respeito determinassem quem ele seria, nem o que seria capaz de conquistar. Davi foi capaz de olhar para si e reconhecer o valor das suas experiências. Durante o tempo em que cuidou das ovelhas de seu pai, precisou enfrentar desafios. Quem sabe muito menores do que seria enfrentar Golias, mas essas experiências foram validando sua confiança e o convenceram de que era capaz de enfrentar desafios maiores, inclusive aqueles que ninguém ousava. Sem querer por tempero demais na conversa, às vezes me pergunto se o que fazia com que aquelas pessoas não acreditassem em Davi, não era exatamente a convicção de que eles próprios não seriam capazes.

A opinião do seu pai, dos irmãos e do rei era gratuita. Eles se apoiaram na aparência de Davi, no seu porte físico e no trabalho humilde que o viam realizar. Mesmo que não seja intencional, a opinião de pessoas que são importantes para você pode levá-lo a andar de cabeça baixa, fazer você se entregar, acreditando que realmente não é capaz de mudar sua história. Elas podem convencê-lo de que a imagem que fazem a seu respeito é a verdade e que, portanto, você deve se adequar a ela. Por vezes, não são pessoas que provocam isso, mas situações. Derrotas momentâneas, projetos fracassados, planos interrompidos podem consolidar crenças extremamente negativas e limitantes, tais como: “eu não te falei que daria errado” ou “está vendo? Eu nunca vou conseguir!”.

Quem anda olhando para baixo, nunca vê o real tamanho de seu desafio. Quem vive deitado acredita que qualquer problema é grande demais para ser vencido. Só quando decide ficar em pé e olhar de frente é que terá real dimensão do desafio. É preciso escolher se permanecerá prostrado ou se vai decidir pelo seu sucesso pessoal, ficando em pé sobre seus próprios e a partir de sua própria biografia.

A história que Davi contava para si mesmo era completamente diferente. Davi edificou a sua autoimagem sobre sua experiência pessoal e particular. Espera aí um momentinho! Essa pessoa que vocês estão descrevendo não se parece com quem eu vejo quando me olho no espelho. “Quando aparece um leão ou um urso e leva uma ovelha do rebanho,
eu vou atrás dele, atinjo-o com golpes e livro a ovelha de sua boca. Quando se vira contra mim, eu o pego pela juba, atinjo-o com golpes até matá-lo”. As histórias da minha vida, as minhas superações e conquistas, os desafios que venci, os obstáculos que superei me fazem acreditar que posso ir um pouco mais adiante e obter mais est vitória. Vocês não confiam em mim porque só puderam me observar durante o jantar ou enquanto eu estava trancado em meu quarto tocando minha guitarra. Entretanto, isso não é tudo sobre mim.

Você nunca matou ursos? Nunca pegou um leão pela juba e o golpeou até mata-lo? Ok, isso não significa que sua vida é muito diferente da vida de Davi. Comparar rapidamente esse evento a nossa realidade pode nos fazer pensar exatamente o contrário: eu sou um covarde, porque não enfrentaria Golias e nem mesmo leões e ursos. Não há, contudo, ninguém que esteja lendo este texto, que não tenha ao menos uma experiência de sucesso para contar. Sua experiência pode não parecer tão relevante, mas sempre é possível olhar para traz e ver em nossa linha do tempo, eventos em que foi preciso fazer o que não acreditávamos ser capazes. Momentos em que críamos ter encontrado nosso limite máximo, mas que foram superadas.

Somar essas experiências pode anular, uma a uma, as impressões erradas que pais, irmãos, amigos ou que qualquer outra pessoa teve sobre você, além de servir de referência para construir uma autoimagem sadia de um campeão, que vence ursos, abate leões e derruba Golias.

Algumas vezes me passa pela cabeça se uma atitude como essa não revela alguém que passou a confiar só em si mesmo? Então, lembro-me das ultimas palavras de Davi diante do rei: “O Senhor que me livrou das garras do leão e das garras do urso me livrará das mãos desse filisteu” e fico mais tranquilo, porque são palavras que não nos deixa esquecer que a nossa força para vencer do Senhor! Trabalhe como se tudo dependesse de você, mas confie em Deus como se tudo dependesse dele é uma frase difícil de explicar, mas que explica muito melhor do que eu poderia fazer.

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