Capítulo 1 – Caligrafia

???? As primeiras páginas dos meus cadernos nos primeiros anos de escola eram uma tentativa de ser perfeito. Havia cabeçalho, com o apoio de uma régua, eu passava um traço abaixo de cada novo título com uma caneta Bic, verde.
 
???? Isso durava pouco. Minha caligrafia era péssima. Eu mesmo cheguei a pedir para minha mãe comprar novos cadernos de caligrafia para que eu pudesse treinar, mas aquilo parecia algo realmente impossível. Muitas vezes, eu precisei que ela me ajudasse a decifrar o que havia escrito em meu próprio caderno. Sei que isso é um absurdo!
 
???? Quando chegava neste ponto, a dor e a ansiedade era tão grande que eu começava novamente. Comprava um caderno novo e recomeçava o ritual: cabeçalho, títulos em vermelho e com uma nova Bic verde riscava forte os títulos das aulas com o apoio da régua.
 
???? Esperança renovada, um novo brilho nos olhos e lá estava eu esperando que dessa vez os resultados fossem diferentes! Não lembro quanto tempo isso durava, talvez um mês, dois meses no máximo, mas sei que este ciclo se repetiu por anos.
 
???? Eu nunca falava com ninguém sobre isso. Hoje está claro que comprar novos cadernos e recomeçar era o meu jeito de dizer que desejava superar aquele problema, que não tinha desistido, mas na minha cabecinha era como se aquilo fosse “normal”. Afinal de contas, se mais ninguém na sala tinha o mesmo problema, aquilo deveria ser um defeito de fabricação meu, com o qual eu deveria conviver.
 
???? Se você está dirigindo seu carro e de repente percebe que entrou numa rua sem saída, você não fica ali pensando em uma forma de cavar um túnel ou criar uma ponte. Você aceita que aquilo é uma rua sem saída, dá meia-volta e segue por outro caminho.
 
???? É simples assim! E acho que eu pensava mais ou menos dessa forma.
 
???? Quantas vezes você se sentiu assim? Com a sensação de que o muro que está diante de você é intransponível. É algo que fará parte da sua história por toda a vida e que o negócio e se adaptar e aprender a conviver com ele. Quantas vezes a palavra impossível passou pela sua cabeça como uma espécie de selo que decreta o destino dos seus sonhos.
 
???? Eu poderia ter pedido ajuda ao meu pai, que tem uma caligrafia linda, toda em letras de fôrma ou a ajuda da minha mãe, com aquela caligrafia cheia de voltas, letras firmes, alegres, mas eu não sabia que isso era uma possibilidade. Não sabia que era possível. Eu não entendia que aquilo era algo que fazia sentido questionar.
 
???? Era “algo normal” que me fazia pensar que eu era daquele jeito, capaz de avançar somente até ali. Isto fazia com que eu me sentisse menor do que os demais colegas, fazia que eu me sentisse menor do que o Marcio, um japonês que só tirava nota dez, que escrevia com letras grandes e arredondadas. Eu me sentia menor que a Fátima, menor que o Marcelo, menor que a Tatiane, que parecia um litro de leite, branca-branca-branca, mas com lindos olhos azuis. Rsrsrs.
 
???? Faz muito tempo que isso aconteceu, mas foi preciso repetir aquele ciclo em muitos outros objetivos até que eu descobrisse que aquilo não era normal. Que colocar uma águia no galinheiro e chamá-la de galinha nunca fará dela uma galinha, que basta abrir o galinheiro e lançá-la num grande precipício para ela despertar e descobrir sua verdadeira natureza e enxergar que seus limites lhe permitem ir além, que seus limites lhe permitem os maiores voos.
 
???? Você sente que sua vida parece inadequada? Que não é assim que você deveria viver? Que suas ações não parecem coerentes com a sua forma de pensar? Você sonha com objetivos positivos, nobres, significativos, mas suas ações não refletem e não produzem esses resultados?
 
???? Eu não sei quem me contou aquela mentira. Não faço ideia de quando foi que eu acreditei que aquela rua era sem saída, que a porta nunca se abriria, que o sol nunca nasceria, que o deserto nunca terminaria, que o sim nunca chegaria!
 
???? Talvez, enquanto você estava lendo este texto pensou no quanto é claro para você que trocar o caderno nada mudaria, que era preciso mudar a pessoa que estava escrevendo, que era preciso que eu fosse capacitado, impulsionado, motivado, treinado.
 
???? A minha letra hoje não é tão melhor que eu possa me gabar ou dizer que foi um evento em que eu me superei. Na verdade, acolho alguns dos meus garranchos com orgulho artístico e não tenho nenhuma necessidade de que alguém me elogie por eles.
 
???? O grande aprendizado não vem de qualquer mudança na qualidade da minha caligrafia, mas do fato de que em algum momento eu percebi que estava culpando a pessoa errada. Sei que não é algo lógico e racional, mas de alguma forma eu culpava o caderno e quando minha tolerância se esgotava, eu o abandonava – como quem deixa alguém que já não é possível amar – e partia para um novo caderno em busca de um novo amor!
 
???? O menino Péricles não estava pronto para enxergar que na verdade não o que se tornava intolerável era o que ele via sobre si mesmo, que o que eu não conseguia fazer era reconhecer que havia atingido o limite da sua capacidade e que nada mais poderia ser feito. Eu não era capaz de reconhecer uma das necessidades mais básicas do ser humano que é a necessidade de se sentir capaz e não fui capaz de pedir ajuda. Dá para imaginar o tamanho da minha dor?
 
???? Talvez existam áreas da sua vida, comportamentos que você percebe em você, situações mal resolvidas que lhe provoquem a mesma dor. Mulheres que a cada dia vão engordando mais, se tornando obesas e que, fazem isso como uma forma de se punir porque parecem ter atingido o limite da sua capacidade e acreditam que esse limite não foi suficiente para vencer o problema. Talvez você seja um homem que optou pelo álcool em excesso e não consegue mais controlar isso, talvez você não tolere mais olhar nos olhos da sua esposa e dizer que a ama porque sente que chegou no limite da sua capacidade de amá-la, fez tudo o que parecia estar ao seu alcance, mas concluiu que não foi o suficiente e, por causa disso, tem buscado sexo fora de casa, onde tenta recuperar seu brio, sua masculinidade. Talvez você seja um filho ou uma filha que odeia seus pais com toda força da sua alma sem entender que o que você mais queria na vida era que eles enxergassem o quanto você tentou amá-los.
 
???? Eu não sei te explicar por que usamos tanta inteligência e capacidade para nos sabotar e fugir do verdadeiro problema ou porque consideramos tão mais fácil colocar a culpa no caderno, na esposa, no marido, no chefe ou nos amigos. Freud que explique esse tal inconsciente.
 
???? Também não sei por que tão facilmente deixamos que as pessoas que nos cercam estabeleçam quem somos, o que somos capazes de fazer e como será o nosso futuro, mas sei que com um ato de coragem – apenas um ato de coragem -, podemos gritar e pedir ajuda, mesmo que não saibamos que ajuda é essa. Podemos olhar para nós mesmos e reconhecer a verdade, enxergar o que se tornou intolerável ver no espelho, escolher lidar com isso e decidir firmemente abandonar nosso medo de que não somos capazes. Só assim, poderemos reconhecer que a perfeição não é uma característica com a qual podemos contar, mas que mesmo imperfeitos e de forma imperfeita somos capazes de mudar de uma vez por todas a nossa história.
 
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Sucesso, paz e até o próximo capítulo!
 
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